O charme do judaísmo

jesus-jew-prayingAntes de mais nada, quero deixar claro que am0 os judeus e tenho o maior respeito e admiração por esse incrível povo que o Senhor tem preservado com sua destra poderosa, e sobre o qual ainda serão cumpridas todas as gloriosas profecias anunciadas nas Escrituras para a nação de Israel. Amo também os irmãos judeus no seio da igreja de Cristo, verdadeiros tesouros de sabedoria e profundidade espiritual.

Mas uma dessas inúmeras coisas que desviam a igreja do seu propósito central é o irresistível charme que o judaísmo do Velho Testamento exerce sobre certos círculos do cristianismo. É isto o que quero criticar aqui, com a mais sincera intenção de “preservar a unidade do Espírito, no vínculo da paz”, mas já de antemão pedindo desculpas pelo tom sarcástico que se segue.

Uma profecia anunciada sob o clássico jargão dos profetas antigos (“assim diz o SENHOR”), ainda mais se for enfatizada com o indicador em riste, imediatamente captura a reverência da plateia. Um sermão pregado com sotaque estrangeiro de judeu convertido instantaneamente se reveste de uma aura de inquestionável autoridade e credibilidade, não importando se o conteúdo é compatível ou não com a simplicidade que há em Cristo Jesus (pare e leia 2Co 2.2-4). Um desses,  ousadamente afirmou que os livros da Bíblia Sagrada estão ultrapassados (com exceção da Torah e do Apocalipse, que segundo ele são os únicos que nos permitiriam manter-nos “na crista da onda” da revelação bíblica para os dias atuais), e isso apesar do nosso Mestre ter dito que “as palavras que vos tenho dito (todas elas) são espírito e são vida” (Jo 6.63) e “passarão o céu e a terra, mas minhas palavras (todas elas) não hão de passar” (Mt 24.35). Um outro tem o atrevimento de afirmar que Paulo se equivocou em certos trechos de suas cartas (as quais portanto já não seriam inspiradas pelo Espírito Santo, ou então teríamos que reconhecer que Deus falhou nesse processo, e que a aguçada mente do referido ministro detectou um erro que passou desapercebido pelos mestres da igreja durante nada menos que dois milênios!). Todas essas abobrinhas espirituais me trazem à memória a indignada expressão de Paulo às igrejas da Galácia, pelas quais ele tinha enorme zelo, a ponto de gemer com dores de parto,  até que Cristo fosse formado nos irmãos: “Ó, insensatos gálatas!!!” (Gl 3.1-3).

Não importa quais argumentos possam utilizar para justificar a nova moda, há quem acredite ser mais espiritual referir-se ao nosso Senhor e Salvador não mais com um simples “Jesus”, mas sim usando um refinado “Yéshua” (note o acento, aprimorando o vulgarizado “Yeshúa”). Se acrescentar “Ha Mashiach” (com “h” gutural ao final), mais chique. Ainda na onda de nomes, melhor dizer, em vez do trivial “Espírito Santo”, um mais nobre “Ruach Ha Kadosh” (se sapecar a versão “Ha Kodesh” há chance de insinuar ainda maior erudição…). E por aí vai, num besteirol sem fim, “Yohanan” em vez de “João” etc. etc. etc, de modo que alguém pode sentir-se demodé, posto de escanteio ou excluído do seleto clube dos cultos irmãos, se não usar o mesmo jargão pretensamente espiritualizado! O curioso é que os autores dos livros do Novo Testamento, todos eles de verdadeira linhagem judaica (com exceção de Lucas), em sua autoridade apostólica e ungidos pelo Espírito do Senhor, fizeram questão de escrever suas cartas em grego, usando nas mesmas a “tradução” do nome do Senhor como sendo “Iesous” e “Christos”, sem maiores frescuras linguísticas.

Não podemos deixar de mencionar, ainda, o clericalismo (que em alguns casos chega ao extremo do sacerdotalismo evangélico), rançosa herança do sacerdócio levítico do Velho Testamento, via resquícios do catolicismo romano que a Reforma Protestante não conseguiu erradicar. Já há igrejas ressuscitando (ou melhor, forjando) “patriarcas”, já que o título de “apóstolo” virou arroz com feijão (bem, aí já estamos imitando os mórmons, só faltando assumir a poligamia para os “patriarcas” da seita). Outro vem com o “revelamento” de que, além de ser necessário guardar o sábado, e não mais o tradicional domingo, deve-se usar o kipáh (aquela rodelinha de pano que cobre a careca) ao subir ao “altar” na “casa de Iehovah”. Isso sem falar de restrições alimentares ao estilo kosher, para os estômagos mais consagrados, apesar do próprio Jesus já ter alertado que não é a comida que contamina o homem (Mt 15.11,17), porque a comida entra pelo corpo e sai do mesmo modo indigno e fétido, não importando se pelo sistema digestivo entrou kosher ou uma costelinha de porco. Não demora muito, alguém vai começar a queimar incenso (físico) em reuniões de oração da igreja; de repente um outro vai acabar propondo a circuncisão do prepúcio dos bebezinhos crentes ao oitavo dia, e ainda outro adotará o sacrifício de rolinhas, cordeiros e novilhas, já que a reconstrução do terceiro templo está próxima. Onde é que isso vai parar?! Na verdade, esse é um desvio doutrinário que assalta a igreja desde os seus primórdios, bastando dizer que já por volta de 49 d.C., o primeiro  livro do Novo Testamento a ser escrito (a carta do apóstolo Paulo aos gálatas) foi motivado exatamente para refutar o ensino judaizante.

Dou graças a Deus por Jesus, que um dia levantou os olhos aos céus e agradeceu ao Pai por ter ocultado aos sábios e entendidos as coisas genuinamente espirituais, revelando-as aos pequeninos, aos mansos e humildes de coração (Mt 11.25). Paulo também chamava a atenção para o fato de que não eram muitos os sábios “segundo a carne” no meio da igreja, e que Deus escolheu as coisas humildes e simples para confundir e reduzir a nada a vanglória humana (1Co 1.26-28). Imagine se algum dia ocorreu a esdrúxula cena de que alguém tenha visto Paulo ensinar assim, aos escravos que ele ganhou para Cristo nas colônias romanas: “amados, já tantas vezes lhes roguei, digam ‘Yéshua’ e não ‘Iesous'”. Acho que ele tinha coisas mais relevantes a transmitir aos irmãos do primeiro século…

Concluindo, vejo tudo isso como sintomas de um corpo que perdeu a conexão com sua cabeça, que é Cristo. Alguém aí, em suas malvadezas de menino, já decepou uma formiga saúva, daquelas grandes e cabeçudas? Pois é, os movimentos erráticos do corpo descabeçado servem como perfeita ilustração para boa parte da igreja nos tempos atuais. Na falta de revelação de Cristo no espírito, e justificadamente cansados com o formalismo religioso, acabam, no infantilismo de romper com a tradição engessada, caindo no extremo oposto das esquisitices judaizantes. Ao Senhor e à sua Palavra, amados!

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